Artigos- 20/03/2017

“A carne abusiva”, por Solange Jurema

O País passou o final de semana ainda digerindo o escândalo da “Carne Fraca” produzida, embalada, consumida e exportada pelo Brasil que aterrorizou a todos pelo nível de irresponsabilidade das empresas do setor.

A investigação da Polícia Federal, a reação do Ministério da Agricultura e a fortíssima repercussão negativa da opinião pública e dos organismos mundiais de saúde, além da preocupação com nossa própria saúde, nos obriga a refletir sobre a realidade que vivemos.

E a reflexão é ruim.

É assustador a todos nós imaginar que o alimento que consumimos pode estar sendo diariamente manipulado por grandes corporações do setor, sem que a autoridade sanitária responsável pela fiscalização atue para impedir esse descalabro.

A corrupção desenfreada vista pelo País nos últimos anos da “era PT” parece ter contaminado a todas as esferas do poder público brasileiro em suas três instâncias.
Como o exemplo partia de cima da pirâmide do comando federal nos 14 anos petistas no Palácio do Planalto, a base dela, nos municípios e nos estados, se sentia a vontade para fazer o “mal feito”.

Assim, com o correr dos anos e o uso e costumes do estado brasileiro na gestão petista, o Estado tornou-se refém de grupos político-partidários que ocuparam a máquina pública com objetivos pouco nobres.

A negociação do alto escalão com as lideranças dos partidos e as grandes empreiteiras – revelada minuciosamente pela Lava Jato – disseminou-se na hierarquia estatal com os cargos de segundo e terceiro escalões transformando-se, também, em antros de corrupção.

A ação sempre eficiente da Polícia Federal desvendou mais um esquema no Estado brasileiro. Segmentos importantes da estrutura de fiscalização da produção e comercialização da carne brasileira no Ministério da Agricultura contaminaram definitivamente a eficácia do sistema.

É o momento de aprofundar a investigação, separar o joio do trigo, esclarecer a opinião e adotar novas regras de procedimento burocrático que de fato garantam a qualidade da carne a ser consumida pelos brasileiros.

Também não se pode generalizar o mau comportamento de alguns – por mais que sejam representativos e expressivos do setor agropecuário – e punir o setor do agronegócio do País que, somente com a produção de carne, emprega mais de quatro milhões de pessoas.

O que tem que acabar é com a corrupção, com o abuso daqueles que pelo tamanho da empresa que dirigem se sentem acima da lei, da fiscalização e da presença do estado em seu setor produtivo.
A Lava Jato já nos mostrou – e está mostrando – que o Brasil de hoje não aceita mais impunidades e atos corruptos que só prejudicam a população.

Não aceitamos abusos, muito menos na produção de carne que nos alimenta e nos garante e a nossa família a indispensável energia para enfrentar a “carne abusiva” que tentam colocar na nossa mesa.

*Solange Jurema é ex. Ministra do governo Fernando Henrique Cardoso e presidente do Secretariado Nacional da Mulher-PSDB

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26/05/2017