“Cidades mais inclusivas”, por Marcello Richa

Artigos - 26/04/2017

Dados divulgados pelo Ministério da Saúde em abril apontaram um aumento de 60% no índice de obesidade no Brasil nos últimos dez anos. Esse número reforça o problema que representa as doenças não transmissíveis, responsáveis por 72% das causas de morte no país, com prevalência de doenças cardiovasculares, hipertensão, depressão, diabetes e colesterol elevado – todas relacionadas ao sedentarismo e sobrepeso.

Vivemos em uma época em que as tarefas diárias e o exercício profissional gastam pouca energia, porém exigem muito tempo e possuem uma pressão por resultados constante. Somado a isso, o acesso fácil a alimentos industrializados pouco indicados para uma dieta saudável e menos tempo para a realização de atividades físicas tem contribuído para uma constante queda na qualidade de vida da população.

Reverter esse quadro exige uma atenção maior ao incentivo de mudança de hábitos para um estilo de vida mais saudável, de forma a prevenir a incidência dessas doenças. Nesse sentido, é necessário que tenhamos cidades mais ativas na promoção e oferta da prática de exercícios físicos que trabalhem a perspectiva de melhoria da qualidade de vida, diversão, inclusão social e facilidade para a realização das obrigações diárias.

A mudança deve começar na comunicação e alcançar até a promoção de programas e serviços. É consenso que campanhas institucionais precisam sair do padrão de culpar o indivíduo pelo sobrepeso (uma vez que diversos fatores, que vão desde genético ao emocional, afetam essa questão), respeitar a diversidade corporal de cada pessoa e apresentar os benefícios de saúde que a atividade física regular e alimentação adequada trazem para sua vida.

Já na área estrutural a mudança é ainda mais desafiadora, especialmente considerando os poucos recursos destinados para esse fim. É difícil incorporar, por exemplo, a bicicleta como um modal de transporte quando não são disponibilizadas ciclovias que liguem diferentes pontos da cidade ou que ofereçam segurança adequada para sua utilização. Também pouco adianta ter unidades de Esporte e Lazer se não são realizadas capacitações ou disponibilizado equipamentos para a oferta de diferentes modalidades, que iriam permitir que pessoas de todas as idades e gostos pudessem praticar as atividades que tenham preferência.

O esporte e a atividade física representam uma ferramenta fundamental de mudança social que não pode ser encarado como gasto em políticas secundárias, mas como uma ação intersetorial que irá complementar os serviços de saúde e trazer melhorias nos índices de educação, assistência social e segurança.

Ainda temos no Brasil uma mentalidade voltada a resolver os problemas apenas quando eles aparecerem, ignorando que a prevenção é a maneira mais econômica e eficaz para o desenvolvimento das políticas públicas. Se não fizermos nada para mudar o atual cenário, os danos causados por doenças não transmissíveis continuarão a expandir e exigir investimentos cada vez maiores para seus tratamentos.

* Marcello Richa é presidente do Instituto Teotônio Vilela do Paraná (ITV-PR)

X
26/04/2017
Charges