
JUVENTUDE E VIOLÊNCIA
MARCUS WAGNER de SEIXAS
Presidente do IBPJ
Consultor de Políticas de Juventude de diversas Prefeituras.
Introdução
De acordo com pesquisa inédita da
Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO) a
violência no Brasil atinge muito mais os jovens de 15 a 24 anos do que cidadãos
de qualquer outra faixa etária. A pesquisa constata que, entre os jovens de 15
anos, 23% morrem de homicídios. Aos 17 anos, os jovens assassinados já são
35,3%. Até que a violência atinge seu máximo com os jovens de 20 anos: 37,1%
deles morrem vítimas de homicídios.
Para o representante da UNESCO no Brasil,
Jorge Werthein, o problema está na falta de
perspectivas dos jovens brasileiros: eles têm poucas esperanças e muitas
incertezas a respeito do futuro, de seu engajamento no mercado de trabalho, de
sua inclusão social. Ainda segundo ele, há 32 milhões de jovens de 15 a 24 anos
no Brasil e um grande percentual desses jovens vivem
em lugares carentes, onde não há espaço para desenvolver atividades esportivas
e culturais. Assim, a juventude usa a rua, com todas as conseqüências que isso
traz: mortes, proliferação de gangues, etc...
Panorama da situação internacional
A questão da violência juvenil não é
exclusividade brasileira. A diferença reside na importância dada ao problema
por parte das autoridades internacionais. Não só na guerra, mas também na paz a
força juvenil cada vez mais tem demonstrado seu poder transformador, haja vista
a última eleição do atual Primeiro Ministro inglês, o neo
trabalhista Tony Blair.
Após constatar na World Competitiveness Report que
a Juventude britânica liderava a Europa em violência, uso de drogas e comportamentos
irresponsáveis o então candidato Tony Blair construiu
seu discurso: Educação. Não que a Inglaterra não ofereça boas
escolas aos seus jovens, mas sim que há uma inadequação do ensino frente às
novas exigências do mundo atual, ocasionando altas taxas de evasão escolar. Inicia-se
assim o ciclo vicioso que termina com a exclusão juvenil:
Inadequada formação ® baixa qualificação
para o emprego ® sem rendimento ® sem condições de vivenciar a própria
juventude ® sem motivação ® sem disposição de elaborar projetos de futuro ®violência...
Como o desejo de Tony Blair
é colocar a Inglaterra na liderança do bloco europeu, nada mais natural que
investir na reversão desse quadro, e é por isso que a prioridade de seu governo
será readequar o ensino britânico às necessidades de nosso tempo.
As causas psicossociais
da violência
Num trecho da extensa carta enviada em 1932
por Sigmund Freud a Albert Einstein, respondendo a outra carta em que o físico
o convidava a discutir o assunto Como evitar as guerras
?, o "pai da psicanálise"
destrincha a relação entre Direito e Poder, ressaltando que " a violência
é vencida pela união. O Direito não é senão o poder de uma comunidade..."
A seguir, Freud destaca que o Homem é dotado de duas categorias de instintos:
ou tendem a conservar e unir (os instintos eróticos de Eros), ou tendem
a destruir e matar (instintos de agressão e destruição, ou tanathos).
Qualquer um desses instintos é tão imprescindível quanto o outro, e de sua ação
conjunta e antagônica surgem as manifestações de vida.
Segundo Sigmund Freud, não se trata de
eliminar de todo as tendências agressivas humanas; pode-se tentar desviá-las,
ao ponto que não necessitem buscar sua expressão na guerra. Se a disposição à
guerra é um produto do instinto de destruição, o mais fácil será apelar para o
antagonista desse instinto: Eros. Tudo que estabeleça vínculos afetivos
entre os Homens deve atuar contra essa guerra. Quando se estabelecem
importantes elementos comuns entre os Homens, despertam-se sentimentos de
comunidade, identificações.
Para Freud, desde tempos imemoriais
desenvolve-se na humanidade o processo de evolução cultural (que outros
denominam civilização). As modificações psíquicas que acompanham a evolução
cultural são notáveis e inequívocas. Consistem em uma progressiva limitação das
tendências instintivas. Entre as características psicológicas da cultura, duas
parecem ser as mais importantes: o fortalecimento do intelecto e a
interiorização das tendências agressivas. Ele conclui este assunto afirmando
que tudo que impulsione a evolução cultural trabalha contra a guerra e a
violência.
A importância de uma Política Pública específica
Como a teoria holística nos demonstra, as
partes de um sistema estão ligadas e são interdependentes, não havendo como
entender uma determinada sociedade sem considerar as implicações psicológicas
dos indivíduos que a compõem. Nesse sentido, a pesquisa da UNESCO mostra-se
extremamente importante porque conclui que nossa juventude (em especial dos 15
aos 24 anos) está psicologicamente abalada. E esse
desequilíbrio têm conseqüências para toda a sociedade porque a violência
não estabelece limites.
De acordo com a pesquisadora do Departamento
de Relações Internacionais da Universidade de Brasília, Maria das Graças Rua,
quando uma demanda nova ou recorrente passa a preocupar as autoridades e se
torna prioridade na agenda governamental temos então
um problema político. Basicamente, ainda segundo a pesquisadora, há três
maneiras de converter uma demanda em problema político:
1- mobilização (da ação política) ;
2- crise ;
3- oportunidade.
Na primeira situação (1), há uma ação
política de grandes grupos, ou ação coletiva de pequenos grupos dotados de
recurso de poder ou quando atores individuais, estrategicamente situados, são
acionados. Os atores políticos podem ser Públicos (políticos, burocratas,
tecnocratas) ou Privados (empresários, trabalhadores, sindicatos, associações
sociais, agentes internacionais, mídia).
Na segunda situação (2), quando o ônus de
não resolver o problema se torna mais que o ônus da resolução. Nesse caso temos
o exemplo do Distrito Federal, no governo Cristóvam
Buarque. Após o assassinato do índio Pataxó por
jovens de classe média alta de Brasília, o então governador agregou a palavra
Juventude à sua Secretaria de Turismo e iniciou estudos, seminários e programas
específicos para o jovem brasiliense.
Na terceira situação (3), quando há
vantagens antevistas por algum ator relevante, a serem obtidas com o tratamento
do problema.
Se por bem os problemas dos jovens ainda não
entraram na agenda governamental através da mobilização, ou se nenhum ator
político vislumbrou as vantagens de enfrenta-los,
só devemos esperar que o pior aconteça. O que é inexplicável é que as políticas
públicas de prevenção da violência, sete a oito vezes mais baratas do que as de
repressão, são fragmentadas. Há uma experiência aqui,
outra ali. Não há, em lugar nenhum, uma política global, integrada, para os
jovens !
Segundo radiografia da juventude das
periferias, dos espaços que lhe são dedicados e das opiniões dos jovens sobre a
sociedade em que vivem, publicadas no livro "Cultivando a vida,
desarmando violências", da UNESCO, é nesse retrato que se
encontram dados inéditos. No Rio de Janeiro, por exemplo, 70% dos jovens
entrevistados nunca vão à praia, 55% não praticam esporte, 11% afirmam nada
fazer nas horas vagas. Para finalizar, um depoimento revelador, prenúncio da
crise e do desmando governamental: "Os traficantes colocaram o lazer na
comunidade, organizaram o futebol, coisa que a comunidade ama, entendeu?
Colocaram o baile funk, que na época a gente adorava.
Colocaram uma série de outras atividades assim, para animar a comunidade.
Poxa, o traficantes foram os
nossos heróis, entendeu? Na época, os traficantes eram os meus heróis, não a
polícia. Os jovens se sentem discriminados por diversas razões: por serem
jovens, por morarem em bairros da periferia ou favelas, por sua aparência
física, pela maneira como se vestem, pela dificuldade de encontrar trabalho,
pela condição racial e até pela impossibilidade de se inscrever nas escolas de
outros bairros. Há reações contra jovens que aprendem dança e música e eles
próprios são violentos contra os homossexuais. Parte da discriminação que
sentem é atribuída à imagem que têm na mídia..."
|