Prévias do PSDB: aprendizado, riscos e legado

Artigos - 13/12/2021

Por Vítor Diniz e Fabiano Lana (*)

Há uma distinção entre formação e vivência. Aprende-se muito em bancos de escola e livros algo que nunca irá se vivenciar. Conosco, aconteceu o contrário. Como organizadores das chamadas prévias do PSDB, tivemos a faculdade de assistir e mesmo mediar, do lado de dentro, como se dão as disputas por poder em ambiente democrático. Uma experiência que iremos levar para a vida.

Lidávamos com algo novo no Brasil. Definição de candidato à presidência por aqui, infelizmente, é assunto para poucos de uma cúpula partidária. Na piada interna do partido, não sem traços de verdade, o PSDB costumava indicar quem seria seu nome à presidência de um restaurante em Higienópolis, São Paulo, com uma mesa para poucas pessoas e um bom vinho. Agora seriam dezenas de milhares com essa autoridade.

Desde o início, nenhum ponto das prévias idealizadas pelo presidente do partido, Bruno Araújo, foi suave, consensual. Cada item das regras, datas, definição do eleitorado, foi marcado por intensas discussões, divergências (no bom sentido da palavra) e mesmo impasses, só resolvidos por aguerridas negociações.

O método de votação seria uma inovação dentro da inovação. Optou-se por um aplicativo eletrônico como maneira de que bastava um filiado ter um celular para poder votar. Um risco, claro. Todas as outras soluções teriam fortes desvantagens. Urnas eletrônicas, por exemplo: em que cidade seriam instaladas, face à impossibilidade logística e financeira de colocá-las em todos os municípios brasileiros? O celular, no final das contas, é um equipamento que chegou a todos. Foi uma decisão pioneira que teve suas consequências.

Ao mesmo tempo em que a organização do partido lutava para encontrar quem pudesse criar, do nada, um aplicativo de votação para celular, as campanhas passavam a se organizar. Formaram equipes, estratégias, verdadeiros exércitos. Os candidatos, o governador de São Paulo, João Doria, do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, e o ex-prefeito de Manaus Arthur Virgílio passaram a rodar o Brasil em busca de conquistar a base do partido. Em que agremiação os postulantes à presidência precisam fazer isso? Hoje, fora o PSDB, nenhum.

Houve, sem dúvida, rusgas, desentendimentos, debates internos duríssimos (muitos estão gravados, registrados, e serão boa matéria-prima para os historiadores interessados nos meandros do poder). Mas era a prova que não se tratava de uma competição de fachada. Era para valer.

Para a mídia, as prévias ofereceram tudo o que de fato interessa ao jornalismo: disputa, supostas intrigas, chutes na canela. O que para todos os partidos costuma ser algo sob os véus do segredo, no PSDB tornou-se exposto, visceral, com declarações em on interpretadas como gritos de guerra. Foram páginas e páginas de cobertura diária, inúmeras entradas ao vivo, o que por si só é ótimo – uma das acusações que apreciávamos era sobre o “excesso de cobertura” ao PSDB. Houve também muitas críticas, que são do jogo, contra o alto grau de combustão da contenda, algo que, entendemos, fazem parte de certa incompreensão de como se dão as prévias. Foi um aprendizado para todos no Brasil, para estudiosos, comentaristas e mesmo jornalistas.

As prévias tiveram, por fim, até um anticlímax quase hollywoodiano. No grande dia da festa da votação, 21 de novembro, o aplicativo de votação desenvolvido pela Fundação de Apoio à Universidade do Rio Grande do Sul (Faurgs) só funcionou mesmo por uma hora. Uma frustração imensa. Aqui um detalhe sobre o aplicativo: a Faurgs foi a única instituição que aceitou desenvolver esse produto em quatro meses. Outras universidades exigiam mais de um ano.

Mas não podíamos desanimar. A mídia desabou sobre o partido utilizando termos como fiasco e vexame. O PSDB sangrava. E aí tivemos que dobrar a aposta. Desenvolver um bom sistema de votação o mais rápido possível, em menos de uma semana! Ao mesmo tempo em que o dispositivo fosse aprovado pelas mais exigentes empresas de segurança cibernética do país para resistir aos hackers que inevitavelmente iriam nos atacar. Uma antes desconhecida empresa de votação online, a Beevoter, se apresentou e deu conta do recado. Facilitou termos mais de 40 mil nomes de filiados cadastrados e verificados.

Muito por trabalho duro, incluindo virar madrugadas com Bruno Araújo conduzindo pessoalmente o processo, um pouco por providência divina, conseguimos alcançar o objetivo. Entregamos as prévias. Dia 27 de novembro o PSDB apresentou o primeiro candidato escolhido de maneira genuinamente democrática por um processo de escolha interna no Brasil.

Para isso, é preciso registrar, participaram dezenas de pessoas, entre os administradores do partido, área jurídica, profissionais de tecnologia da informação, de comunicação, copeiras, faxineiras, motoristas, atendentes de Call Center, organizadores de evento. O envolvimento foi completo. Todos nós estávamos devastados na noite do dia 21 de novembro, mas em processo de catarse eufórica no dia 27 de novembro. Para nós, não interessava quem fosse o vencedor, mas que houvesse um vencedor.

Com todo esse processo, de suor e até lágrimas, o PSDB buscou fazer história. Mas no bom sentido do termo. Trazendo avanços, se aproximando de quem o constitui, o filiado. Que, nas próximas, o partido saiba superar o que errou, mas com a convicção de que agiu certo. Com a consciência de que apenas quem inova, quem corre riscos, é que deixa legados para a sociedade.

(*) Responsável pela coordenação geral das prévias, Vítor Diniz é cientista político pela UFPE, com mestrado pela USP
(*) Consultor de comunicação do PSDB, Fabiano Lana é formado em comunicação social pela UFMG e filosofia pela UnB


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13/12/2021