Bolsa-esmola

Notícias - 21/02/2005

Numa comunidade pobre nos arredores de Belo Horizonte, a maior parte da população não vive, vegeta. Procurando escapar desta sina, algumas mulheres montaram uma cooperativa de trabalho para desbastar peças de borracha para a indústria automobilística. A atividade não exige qualificação, por isso mesmo oferece uma remuneração baseada na produção de cada trabalhador.

Os rendimentos obtidos não são lá grande coisa, mas são o que de melhor pode conseguir, com seus próprios e escassos recursos, aquela comunidade. Outros empregos são difíceis ou raros, o que há são “bicos”. Apesar disso, a cooperativa tem frequentemente dificuldade de mão-de-obra, porque algumas mulheres se preocupam mais com o Bolsa-Família do que com o negócio.

O fenômeno deve se repetir pelo Brasil afora, com iniciativas comunitárias – que deveriam receber apoio do governo – sendo esvaziadas por seus próprios membros, em consequência de suas urgências. Para essas pessoas, obter o Bolsa- Família é uma providência mais capital do que se engajar num empreendimento que fomenta o desenvolvimento social de sua comunidade.

O caso é emblemático dos efeitos que os programas assistenciais podem produzir na sociedade, quando não caminham junto com outras iniciativas que mobilizem seus beneficiários. O governo federal está investindo volumosos e escassos recursos nesses programas, a fundo perdido, para atender mais aos desejos do presidente do que às carências crônicas desses brasileiros.

O governo Lula está perdendo a oportunidade de promover uma revolução social, como prometeu para se eleger, além de gastar o capital político que adquiriu, ao se conduzir burocraticamente no enfrentamento dos problemas, quando não se dedica a coisas menores. A história há de lhe cobrar isso.



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21/02/2005