Me engana, que eu gosto – Milton Temer

Notícias - 11/02/2004

Atenção, marqueteiros a serviço do governo Luiz Inácio Lula da Silva. Criação tem limites. Vocês acham que todo mundo é tonto? Que os boatos surgem em Brasília porque os jornalistas combinam suas pautas? Para que mais essa jogada de esconde-esconde após a última reunião ministerial? A quem vocês pretendem convencer de que não há contradições entre ministros e que está todo mundo de acordo com a ortodoxia conservadora do Banco Central?

Francamente, nem no Kremlin de Stalin se obtinha tanto consenso. O que pode haver, sim, é abulia cívica. Ministros que preferem engolir sapos a perder a cadeira, sempre sob o argumento tático de que “a linha política está em disputa“.

Não adianta, portanto, expor coincidência de visões entre José Dirceu, Palocci e Henrique Meirelles quando, até semana passada, o disse e desdisse da Casa Civil foi incessante a respeito da prioridade da legalização da autonomia do Banco Central e da manutenção do arrocho nos investimentos públicos. Portanto, se houve bombardeio de notícias, não foi sem razão.

Depois de um primeiro ano absolutamente medíocre, em que programas assistenciais e até ações de pura manutenção administrativa governamental eram sufocados pela prioridade na obtenção de um absurdo superávit fiscal, a parceria dos yuppies do Banco Central com os da Fazenda produziu vários milagres negativos. Derrubou o valor real do salário, aumentou significativamente o desemprego e bateu recordes no pagamento de juros e serviços da dívida pública, com a proeza de fazê-la aumentar ao invés de diminuir. Incompetência? Nem pensar. Política consciente, pois houve quem ganhasse, e muito, com isso. Para saber quem, basta acompanhar os balanços trimestrais dos banqueiros: é lucro por cima de lucro, em doses pantagruélicas.

Agora, até por conta desse esforço na exposição de um “consenso“ governamental, só se pode concluir que tudo vai continuar como antes. Que vamos nos manter reféns de um superávit fiscal bem superior ao que a Argentina negociou com o FMI, em condições bem mais problemáticas dos que as nossas, é bom frisar. Chegamos, com isso, ao paradoxo de ver os índices de 2002, ano crítico que derrotou FHC, transformados em meta de “espetáculo de crescimento“ em 2004.

A Miguel Rosseto já não restam cartas na manga para continuar postergando, sem reação, o início de uma reforma agrária que todos consideravam vir avassaladoramente, sob sua batuta. A Olívio Dutra, então, nem pensar quanto ao desespero dos prefeitos inundados por enchentes e encostas de riscos, para além das necessariamente inadiáveis empreitadas de saneamento básico nas periferias dos centros urbanos, cada vez mais inabitáveis. Sabem os dois que estão limitados a possíveis “cala-bocas“ emergenciais. E o que dizer dos reitores das universidades públicas, sem dormir com a seqüência de ameaças sobre suas unidades, transformadas agora em vilões de uma nova etapa de predação do Estado?

Estreparam-se todos ao longo de 2003, sob a perspectiva deste ano de glórias, onde o governo não lhes poderia faltar, por conta até da necessidade eleitoreira de conquistar prefeituras. E o que começa a despertar desconfiança? Que por conta da incessante dependência de fluxos externos, tudo está condicionado ao que acontecer com a taxa de juros norte-americana. Se o FED sinaliza um microscópico aumento, os predadores da feira bursátil tupiniquim não hesitam em “realizar lucros“ e transferir nossa “poupança interna“ para Wall Street. Com a conseqüente quebra de pequenas e médias empresas, evidentemente, e a liquidação de postos de trabalho na “redução de custos conseqüente da crise“.

Francamente. O que a vida real nos mostra é que o receituário continuísta dos timoneiros de nosso modelo macroeconômico está nos conduzindo a um irreversível atalho de armadilhas, diante das quais só se salvam os especuladores de ponta. Os que conhecem as impressões digitais da “mão invisível do mercado“.

Há saída? Pode haver, se houver ousadia. Se houver vontade política. Se houver independência em relação aos paradigmas impostos pelos banqueiros internacionais e seus parceiros tupiniquins. Mas, não, se o presidente Lula se mantiver avalista incondicional das opções de Palocci e Henrique Meirelles.



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11/02/2004