O ex-presidente Lula e o presidente do Banco Nacional do Desenvolvimento (BNDES), Luciano Coutinho, podem ser convocados na CPI que investiga supostas irregularidades envolvendo o BNDES entre os anos de 2003 e 2015. O deputado Alexandre Baldy (PSDB-GO) vai protocolar requerimento solicitando a volta de Coutinho na condição de convocado e uma nova convocação para que Lula preste esclarecimentos à CPI. Baldy tem como base as novas denúncias feitas neste sábado (3) pela revista Época sobre o tráfico de influência realizado na África em favor da Odebrecht e na facilitação da liberação de recursos do BNDES.
Telegramas e situações citadas pela reportagem trazem evidências ainda mais fortes de que Lula, após deixar o Planalto, passou a atuar como lobista da Odebrecht, contradizendo o que ele e a empreiteira dizem. Alexandre Baldy defende que todas as evidências devem ser investigadas pelo colegiado da CPI. “Temos muito motivos para convocar Lula na CPI, chegará um momento em que ele não poderá escapar. Ele já é investigado pelo Ministério Público por tráfico de influência internacional, um crime previsto no Código Penal, e vamos descobrir se ele teve influência também no BNDES”, defende o deputado de Goiás.
Os papéis mostram que Lula, ainda na Presidência, marcou reuniões de empresários africanos com o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, o que contradiz a versão do executivo sobre as relações do petista com ele e o banco. “Luciano Coutinho mentiu na CPI do BNDES ao dizer que Lula nunca interferiu nos negócios do banco. Isso é crime! Defendo seu retorno, agora na condição de convocado, para lhe dar a chance de esclarecer todas essas ações que retornam contra ele”, afirma.
A reportagem também cita a visita de Lula a Acra, capital de Gana, onde o chefe de Estado do país, John Dramani Mahama pediu apoio para conseguir junto às autoridades brasileiras a liberação de uma linha de crédito de US$ 1 bilhão para projetos de infraestrutura. Quatro meses depois, no dia 19 de julho de 2013, o BNDES liberou para um consórcio formado pela Odebrecht e pela Andrade Gutierrez a contratação de US$ 202,1 milhões (R$ 452,7 milhões, em valores da época). A taxa de juros do empréstimo foi a segunda menor concedida pelo BNDES de um total de 532 operações voltadas para a exportação. O prazo para o pagamento da dívida, acima da média de 12 anos, foi de 234 meses, ou seja, 19,5 anos.
Alexandre Baldy defende, ainda, melhor apuração dos atos em que Lula envolve o nome da presidente Dilma Rousseff em suas negociações. Um dos telegramas revelados pela Época diz: “O ex-presidente Lula disse acreditar que o BNDES teria condições de acolher a solicitação da parte ganense e, nesse sentido, intercederia junto à presidenta Dilma Rousseff”. Outra situação em que o ex-presidente usou o nome de Dilma aconteceu quando Lula fizera lobby para a Odebrecht em Cuba, junto aos irmãos Castro.
O ministro Teori Zavascki, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizou nesta sexta-feira (2) que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, na condição de testemunha, em depoimento em um dos inquéritos da Operação Lava Jato. Para Baldy, isso reafirma a necessidade de ouvi-lo também sobre sua influencia na concessão de empréstimos do BNDES.
Outros motivos
Na última semana, o expresidente foi citado num relatório da Polícia Federal na Operação Lava Jato que mostra uma série de trocas de e-mails de executivos da Odebrecht. Numa dessas mensagens, enviada em fevereiro de 2009, o ministro de Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior, Miguel Jorge, diz a um assessor especial de Marcelo Odebrecht, presidente do grupo, que o “PR fez o lobby” para a construtora numa obra na Namíbia, na África. “PR”, segundo os investigadores, significa Presidente da República, cargo ocupado por Lula na época dos fatos. Lula já foi apontado por fazer lobby para a Odebrecht em Cuba, junto aos irmãos Castro.